O servidor público pode fazer greve!

Direito reconhecido através de lutas e conquistas da classe trabalhista ao longo de diversos anos levou professores e servidores federais as ruas

Aline Martins

Depois de 108 dias de greve na Universidade Federal de Santa Maria, nada mais justo do que o Segunda Chamada fazer um apanhado sobre a situação que levou professores e servidores a paralisarem suas atividades e relatar aqui os objetivos buscados. Alcançados ou não.

A greve desse ano que tinha como pautas principais reestruturação da carreira docente, melhores salários, condições adequadas de trabalho e qualidade no ensino (infraestrutura, professores, técnicos), não resultou em grandes conquistas, nenhuma pauta foi atendida satisfatoriamente, aliás, o governo se quer debateu a questão da melhoria na qualidade de ensino. Na questão da carreira docente, o resultado é um projeto de lei que, se aprovado, trará prejuízos ainda maiores no plano de carreira dos docentes.

Em Palmeira das Missões docentes e alunos bloquearam RS 158 no trevo de acesso da cidade como forma de protesto (Foto: Divulgação SEDUFSM)

Para o professor Luciano Denardi que pela primeira vez como docente participou do movimento, enquanto membro do Comando Local de Greve, de Frederico Westphalen, “A greve é, na verdade, o último mecanismo para reivindicar algo. Várias conquistas na carreira docente e na qualidade das universidades federais, que são sentidas até o momento atual, devem-se a inúmeras greves que ocorreram no passado. Por exemplo, o Cesnors e outras unidades de ensino superior criadas nos últimos anos, no Brasil, são oriundas de reivindicações em movimentos grevistas pretéritos”.

Histórico

Segundo o site da Seção Sindical dos docentes da UFSM (Sedufsm) no dia 17 de maio deu-se início a greve com 33 Instituições Federais (IFE) aderindo ao movimento que cresceu consideravelmente nos dias posteriores, em pouco tempo já eram 47 das 49 IFE em greve. Devido a isso o governo se viu obrigado a reconhecer a greve e propor uma mesa de negociações. Só depois de 57 dias de paralisação é que o Ministério do Planejamento fez a primeira proposta rejeitada pelas categorias grevistas. Em uma atitude antissindical o governo decide encerrar as negociações de forma unilateral, assinando um simulacro de acordo com a Federação de Sindicatos de Professores de Instituições Federais de Ensino Superior (Proifes), mesmo sabendo que esse ente não representava a categoria. A greve continuou. Com mais manifestações e movimentos nas universidades, que continuavam em greve, e em Brasília onde sindicantes faziam suas manifestações e exigiam uma resposta do governo. Manifestações essas que foram até o dia 31 de agosto, prazo para que as previsões orçamentárias fossem incluídas no orçamento. Diante disso a categoria decidiu encerrar a greve de forma unificada entre 17 a 24 de setembro.

Em assembléia docentes votam a favor da saída unificada da greve (Foto: Divulgação SEDUFSM)

Para o ANDES-SN o governo não foi feliz em seu desígnio, pois a greve demonstrou a capacidade de reação da categoria. “Elementos importantíssimoos ficam de saldo, o envolvimento amplo de docentes recém contratados e o retorno daqueles que outrora atuaram mais intimamente no âmbito sindical, incluindo muitos aposentados. Ampliação das filiações em várias instituições com consequente enraizamento do sindicato na categoria. Consideráveis avanços na inserção do ANDES-SN na base, em contrapartida ao processo de fragilização da Proifes”

Alunos e a greve

O apoio dos estudantes a greve dos docentes foi visível nos quatro meses de duração do movimento paredistas, atitude decidida em assembléia, acontecida antes da deflagração total da greve pelos docentes. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFSM campus FW esteve ativo durante a paralisação dos professores como relata a apoiadora e colaboradora da atual gestão Mariele Fioreze “O DCE se somou ao Comando Unificado de Greve em FW, participando ativamente das discussões e contribuindo nos atos e mobilizações realizadas. Neste tempo, tentamos ao máximo compreender toda a conjuntura por detrás da greve dos docente e dos técnico-administrativos, as causas que levaram estas categorias a deflagrarem estado de greve, suas reivindicações, além de abrirmos o debate sobre a Educação Pública através do fórum ‘A educação que temos e a que queremos’ realizado em julho”.

Mesmo com apoio demonstrado ao movimento o objetivo do DCE sempre foi o de reivindicar pautas para os alunos e não para os docentes “Através da nossa inserção nessa negociação conseguimos garantir o debate das pautas específicas do CESNORS em SM, como nossos problemas estruturais, de acervo bibliográfico, benefício sócio-econômico, construção de nova Casa do Estudante (CEU), entre inúmeras outras. Conseguimos deixar vários encaminhamentos, que poderão entrar no orçamento de 2013” afirma Mariele.

 Servidores e a greve

A greve dos servidores da Universidade Federal de Santa Maria começou no dia 11 de junho logo após os docentes declararem greve, não tendo a adesão de todo o funcionalismo mas computando um número considerável os servidores buscavam reajuste salarial. A greve encerrou-se no dia 21 de agosto quando em assembléia os servidores decidiram aceitar a proposta oferecida pelo governo de reajuste de 15,8% em três parcelas (de 2013 a 2015) e retomou as atividades no dia 27.

 

Faça o download da cartilha sobre “Greve no serviço público”  elaborada pelo Coletivo Nacional de Advogados de Servidores Públicos para mais informações.

Poucos dias para muito calendário

As aulas voltaram, o semestre precisa ser concluído, o tempo é curto. As piadas dos estudantes nas redes sociais com o lema do presidente JK “50 anos em 5”, dada as devidas proporções, não parece tão brincadeira assim

Marília Dalenogare

A estudante Kauana salienta ” Achei inteligente quando resolveram acabar a grave, pois se tivesse prolongado mais, os alunos sairiam mais prejudicados do que já estão sendo” (Foto: Marília Dalenogare)

E aqueles rumores de greve do mês de maio se concretizaram. Aquela greve que os estudantes falavam “semana que vem já volta” durou mais de 100 dias e o resultado dela está aí, não somente nas reivindicações alcançadas ou não, mas nos conteúdos deixados para trás, no novo calendário acadêmico, nas 6 semanas letivas transformadas em 2, 3, e para o maioria dos estudantes, apesar de apoiar o movimento,  o resultado da greve é desfavorável.

A maior reclamação dos discentes é em relação ao apertado calendário, onde conteúdos são deixados para trás e avaliações são marcadas de uma hora para a outra, os professores estão tendo que escolher o que passar em sala de aula para os alunos, já que não há tempo para lecionar todo o conteúdo das disciplinas. Apesar da Universidade manter-se aberta durante o movimento, com a presença de professores e alunos, as atividades de ensino foram suspensas, para aqueles que tinham a intenção de adiantar os trabalhos atrasados não foi possível, pois os laboratórios e os equipamentos ficaram inacessíveis e agora com o retorno das aulas, aqueles trabalhos atrasados de antes juntam-se com os atrasados de agora e acabam sobrecarregando os alunos.

Em assembléia estudantil no início da greve, os estudantes optaram por apoiar o movimento, a respeito disso, o estudante do curso de Engenharia Florestal, Henrique Dalla Costa, integrante do Diretório Central Estudantil (DCE), fala que “os estudantes também deflagraram greve estudantil, para garantir o direito de repor as aulas e também para colocar nossas demandas nas pautas do comando nacional de greve, sendo que várias delas estão sendo atendidas, apesar da gente sair prejudicado com relação à reposição das aulas, foi a decisão mais coerente.”

É no apoio a greve por parte dos estudantes que reside o maior argumento dos discentes, já que os alunos apoiaram os professores na greve, que não aconteceu somente por melhorias de salário e de plano de carreira, mas também e principalmente por melhorias na qualidade de ensino, o que vai contra a esse calendário apertado e aos conteúdos que estão sendo deixados para trás.

A aluna de Engenharia Florestal Kauana Engel acredita que os pontos negativos da greve se sobressaíram, ela que ficou em casa durante todo o movimento esperando a volta às aulas salienta que “a greve está prejudicando o desempenho dos alunos, com relação a notas, e também a falta de conhecido necessários para se ter um bom desempenho em uma próxima disciplina, ou ate mesmo como um profissional em determinada área, estou tendo dificuldade de associar muito conteúdo em tão pouco tempo, e também tenho consciência de que alguns conteúdos importantes para eu ser um bom profissional foram deixados para trás.”

Discentes tentam conciliar todas as avaliações do semestre em uma única semana (Foto: Marília Dalenogare)

Além das deficiências no aprendizado, com o novo calendário, outros fatores como o atraso da formatura, já agendada e paga pela maioria dos estudantes, e o atraso ao sair para o estágio final do curso, também são lembrados pelos acadêmicos. Alguns estudantes saíram igual para o estágio, que já tinha data marcada, só que agora que as aulas voltaram o maior problema é conciliar o final do semestre com o compromisso, que na maioria das vezes é em outras cidades, algumas vezes até outros estados. Já outros estudantes nem saíram para estágio por medo das aulas voltarem e acabaram perdendo a oportunidade. Os estudantes contam com a compreensão dos professores para recuperar as aulas. Nesse sentido, o estudante de agronomia Geomar Corassa fala que seus maiores prejuízos vão ser “em relação ao estágio e pela redução nas horas aula de algumas disciplinas, e de maneira mais pontual, no grande atraso em relação a formatura, o que prejudica oportunidades em relação ao mercado de trabalho, editais de mestrado e afins.”

Os projetos também mantiveram os estudantes ocupados durante os 100 dias, com a paralisação das aulas, muitos professores e alunos aproveitaram para dedicar mais tempo às suas pesquisas, mesmo com as aulas suspensas, diariamente um ônibus da empresa São Jorge enchia rumo à Universidade. A aluna de Relações Públicas Candida Cavalheiro Schwaab foi uma das estudantes que passaram o período da greve envolvida com pesquisa, ela fala que além de ter que retomar todos os conteúdos rapidamente para as avaliações finais, “ainda tivemos a notícia de que, segundo o calendário da Universidade, não haverá férias para os discentes entre um semestre e outro e passaremos o verão todo em aula. Para quem, assim como eu, não aproveitou a greve para descansar, os próximos dois semestres serão de permeados por muito cansaço”.

Nos corredores da UFSM/ Cesnors o que mais se vê são alunos apressados, a frase da vez é “recuperar o tempo perdido”. No dia 15 de outubro já começa o segundo semestre de 2012, não há tempo a perder. O estudante Geomar Corassa resume o que a maioria dos estudantes pensam sobre a greve quando diz “A greve é um direito legitimo, previsto até mesmo em lei e por isso é uma mobilização totalmente válida. Acredito que a situação na qual os professores se encontram atualmente (em relação a salário e plano de carreira) é realmente preocupante e desta forma a greve teve o seus “porquês”. Contudo, o principal entrave, deste movimento é: quem ele realmente atingiu? Ou seja, muitas vezes o principal ‘vilão’ que precisa sentir os reflexos da greve (no caso o governo) não é o principal afetado, enquanto que outros meros coadjuvantes – como é o caso do alunos – sentem na pele a sua repercussão, com perdas de aula, mudanças no calendário acadêmico, atraso nas formaturas e nos períodos de estágio. Caindo assim, por terra a velha história de que: ‘os alunos jamais serão prejudicados’”.

O papel do movimento estudantil na greve da UFSM

Segunda Chamada investiga participação de acadêmicos nas mobilizações na greve de 108 dias da UFSM

Josafá Lucas Rohde

A participação massiva dos estudantes foi limitada as assembléias estudantis (Foto: Bruna Homrich/SEDUFSM)

Foram 108 dias de paralisação, 108 dias sem aula, 108 dias de atraso, 108 dias em greve na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e em outras dezenas de universidades pelo país. Durante todo este período, a grande maioria dos estudantes, nos campi da UFSM, foram para suas casas esperar pelo fim da greve. Conforme o integrante do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Henrique Weber Dalla Costa, “a participação mais massiva dos estudantes teria um impacto maior nas atividades”, ou seja, uma possível retomada em menor prazo às aulas.

A indignação nas redes sociais não se traduziu em ações. Segundo a estudante de Engenharia Florestal, Mauren Buzzatti, que esteve presente nas assembléias e ações tomadas durante a paralisação, “nas mobilizações feitas, quem estava presente era justamente os estudantes do DCE e os professores”. Segundo ela, “o restante dos estudantes não se fez presente nestas mobilizações, mas sempre se mostraram presentes indignados com a situação via páginas de relacionamentos sociais na internet, e nada além disso”.

A estudante, Letícia Waldow, disse que viu uma boa participação dos estudantes, segundo ela, “muitos gostariam de estar presentes, mas pela distância acabaram não fazendo parte, e sendo ‘os revolucionários do facebook’, mas quem podia, esteve presente”.

DCE e DA’s promoveram ações, mas com pouco apoio

Reitor recebe reivindicações dos estudantes (Foto: Mariana Fontoura/DCE-UFSM)

Henrique defende a atuação do DCE durante a greve, segundo ele foi realizado “fórum pela educação, atos públicos, marcha pela educação, participação nos comandos de greve locais e nacionais, negociações com reitoria e direção de centro e assembléias”. Ainda segundo o integrante do DCE, a entidade “esteve presente em todas as ações representando os estudantes em nível local e nacional e também criando espaços de discussão e de agitação, alguns em conjunto com técnicos e professores”.  Para ele, “não faltaram ações do DCE, acreditamos também que a greve não é o único, e talvez nem o mais eficiente, instrumento de luta estudantil e que a luta por uma universidade melhor e mais democrática é constante”.

Durante a paralisação, a maioria dos Diretórios Acadêmicos esteve presente nas ações, conforme explicou, Mariele Fioreze, integrante do DA de Engenharia Ambiental, “os DAs contribuíram na construção das pautas e se fizeram presentes nas conversas que tivemos”. Segundo Mariele, “o que conseguimos de fato durante a greve foi uma conversa com a Pro Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) e com a Pro reitoria de Infraestrutura (PROINFRA)”, relata.

Segundo a acadêmica Mauren, “o trabalho dos diretórios acadêmicos foi e é de suma importância neste processo, pois o que está em discussão é justamente a educação, é um momento perfeito para que os DA’s aflorem esta discussão entre os cursos, para que se tenha uma maior reflexão de qual a situação da nossa universidade e das tantas outras no nosso país e que consigam trazer o debate pra dentro destas”. Mas como aflorar o debate se o curso não tem DA? É o caso do curso de jornalismo. O mesmo está sem diretório acadêmico, tendo em vista que na eleição do último dia 24 de abril, a mais de cinco meses, não teve quorum suficiente. A integrante do DA, Priscila Junges, disse que após a falta de quorum na primeira eleição, uma segunda deveria ter sido marcada, mas em função da greve isso não ocorreu.

O Segunda Chamada teve acesso a um documento anexado ao edital das eleições para DA, com especificações sobre o processo eleitoral. O documento não explica o que fazer em situações onde não há quorum suficiente. Priscila disse que alguns integrantes da antiga chapa continuam respondendo pelo DA, para os estudantes não ficarem sem representação. A integrante da então chapa, Chayenne Cardoso, em debate na lista de e-mails do curso de Jornalismo, a qual o Segunda Chamada teve acesso, justificou a não realização de uma assembléia para convocação de novas eleições dizendo: “questão é tempo, entende? É a solução no momento, não tenho como organizar uma assembléia sozinha. Todos sabem de todos os problemas da gestão do DAJ, e esses problemas acarretam o aumento do desinteresse dos alunos o que provoca aquele vergonhoso resultado das eleições”. Segundo Priscila, não há previsão para nova eleição.

Sobre a atual situação do DAJ a aluna do curso de Jornalismo Samantha Schreiber comenta “a falta de representação é prejudicial aos acadêmicos, pois poderiam estar sendo organizados palestras, eventos, ou até mesmo o diretório estar presentes em tomadas de decisões, coisas que não ocorrem sem uma nova eleição, que precisa ser feita de maneira emergencial”. Já a também estudante do curso de Jornalismo Laura Coutinho devolveu a pergunta, refletindo “acredito que a pergunta a ser feita agora não é como se deu a participação da atual gestão do DAJ, mas qual foi a participação de cada acadêmico de jornalismo, tanto na greve quanto nos interesses de movimento/organização estudantil no nosso curso”.

Representantes discentes cumpriram seu papel?

Se o DCE e alguns DA’s agiram durante a greve, o mesmo não aconteceu com alguns representantes discentes. Como é o caso do curso de Jornalismo, em que a representante do curso no Departamento de Ciências da Comunicação (DECOM), participou de apenas uma das três reuniões realizadas durante a greve. Sem dar retorno em nosso pedido de entrevista oficial, a presidente do DA de Jornalismo, e também representante discente, Chayenne Cardoso, em conversa via Facebook revelou: “só participei da (reunião) do início da greve e faltei duas, então como representante discente dentro do DECOM não tive atuação”.

Segundo o integrante do DCE, Vinicius Barth, que tem contato direto com o representante discente do departamento de Engenharia Florestal, “os estudantes que fazem parte do colegiado, como do departamento, estavam no comando de greve participando das atividades, durante a greve teve várias reuniões de reformulação do nosso PPC”. Mas Chayenne explica sua falta de representação, “todas as minhas faltas foram justificadas, por isso não fez mal eu faltar”.

Antropologia explica falta de interesse

Segundo o antropólogo, Milton Lahuerta, em entrevista ao iG, “a juventude não tem interesse pelas questões públicas, a política não é uma dimensão que atrai”. Para ele, o contexto que os jovens estão incluídos no mundo virtual faz parte desse processo. “O Twitter, por exemplo, reforça a rapidez da informação e não induz a reflexão. As pessoas não são educadas a dialogar, a enriquecer o vocabulário e a sofisticar os argumentos”, ponderou.

Momento pós-greve: o que esperar?

Após mais de 100 dias de greve, docentes e discentes se preparam para enfrentar um calendário letivo e as incertezas do ensino público superior

Dieison Marconi

“Me sinto também, e não posso deixar de dizer isto, profundamente envergonhada da minha categoria, sair da greve hoje, neste momento e nestas condições significa ter prejudicado sim os alunos, as suas famílias e à sociedade que acreditou e apoiou nossa luta, peço perdão a todos eles, não por mim, nem pelos meus companheiros, mas por aqueles outros que não conseguem ou não querem ver o que estão fazendo, sair da greve hoje, significa concordar com o Modelo Educativo e portanto de Sociedade que o Governo está impondo, de maneira brutalmente autoritária. Quero manifestar meugigantesco repúdio a esta política de Estado que acaba com a Universidade Pública, gratuita, de qualidade”.

Professores da UFSM/FW foram os primeiros a aderir ao movimento grevista em maio de 2012 (Foto: Divulgação SEDUFSM)

Essas são as palavras da professora universitária Adriana Zeca da Universidade Federal de Santa Maria campus Frederico Westphalen, um dia antes da UFSM deflagrar o fim da greve para o dia 17 de Setembro. Em um depoimento em que votava pela permanência do movimento grevista, a docente abriu espaço para uma reflexão que, se existiu durante o movimento paredista, deve se manter ainda mais forte e mais presente neste momento pós greve: e agora, para onde iremos?  Quais serão os próximos passos? O que a PL 4368 rejeitada pelo Andes significa para a carreira docente e discente? Como está sendo a recuperação das aulas após praticamente quatro meses sem aula? Teremos logo adiante uma greve pela frente?

Greve docente em 2013?

Marinalva Oliveira, presidente do Sindicato Nacional dos Professores Federais, em conversa via e-mail, alerta que o Andes (que representa 53 universidades federais) pode sim retornar a greve em 2013, já que recusou a proposta apresentada pelo governo federal em Agosto, não tendo assim qualquer obrigação de se manter calado durante os três anos de adequação a proposta. Apesar da recusa, o reajuste salarial de 25% a 32% para os docentes já está incluído no plano orçamentário para 2013. No entanto, a possibilidade da greve retornar é concreta pelo fato de que as principais reivindicações dos grevistas não foram atendidas: “a proposta não simplificava a atual estrutura da carreira, não valorizava a produção acadêmica, precarizava a autonomia universitária e se quer levou em consideração as condições de trabalho.” E as demandas não foram atendidas frente a um autoritarismo e truculência desrespeitosos, segundo o Andes. Estas reivindicações que devem levar a uma nova greve nas universidades públicas em 2013 não podem ser tomadas pela Federação dos Sindicato de professores dos Instituições Federais e de Ensino superior (Proifes), já que esta entrou em um acordo.

No vídeo abaixo, você confere a fala de Ascísio Pereira, professor do comando local de greve na UFSM, o qual discorre e analisa sobre o movimento e seus desdobramentos, as propostas ofertadas pelo governo e a influência desta nas universidades públicas como um todo:

 

E neste link você acesso a uma séria análise do movimento grevista feita pelo comando de greve da UFSM

O calendário reformulado

Após mais de 100 dias de greve, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFSM deliberou no último dia 18 de Setembro o calendário letivo reformulado. O primeiro semestre do ano, que já está em andamento, deve ter seu fim no próximo dia 13 de Outubro. O segundo semestre do ano deverá ter seu inicio no dia 15 de Outubro e se seu final no dia 3 de Março. Isso, para o corpo docente e discente da universidade significa que as seis semanas que restavam para finalizar o primeiro semestre de 2012, foram reduzidas para quatro semanas, incluindo o período dos exames. Para recuperar o tempo de aula perdido, o calendário determina também que dias como 26 de Dezembro (pós feriado de Natal) já é dia letivo, assim como o dia 2 de Janeiro (pós feriado de primeiro do ano).

Apesar de já estar em andamento, e a que tudo indica, prosseguir sem modificações, professores e acadêmicos consideram o calendário desrespeitoso para com o movimento paredista, que reivindicava uma educação de maior qualidade, e para com os alunos, que apoiaram a greve dos docentes. Diante desta insatisfação alguns departamentos, que representam cursos da instituição, estão se mobilizando, por meio de seus representantes, para interpor recurso, consultando a Procuradoria Jurídica da universidade e questionando a jurisdicionalidade da decisão.

Greve organizada desde o ano de 2010 acabou sufocada pela intransigência do MEC, Ministério do Planejamento e Governo Federal (Foto: Divulgação ANDES)

No último dia 26, a Seção Sindical dos Docentes da UFSM (SEDUFSM) encaminhou recurso administrativo para ser analisado pelo Conselho universitário. O documento, que você poder ler na íntegra aqui, alerta que pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), todas as instituições de ensino superior devem cumprir pelo menos 200 dias letivos anuais, distribuídos em dois semestres, totalizando, no mínimo, 800 horas, ou seja, 48.000 minutos. No entanto, pelas condições de andamento do primeiro semestre letivo de 2012, como foi posto acima, não se cumprirá a carga horária mínima exigida pela LDB.

Segue o depoimento da Professora Adriana Zeca, um verdadeiro discurso de quem ainda não deu todo sangue e vontade de luta por uma universidade pública e de qualidade nestes quase quatro meses de greve, mesmo quando a categoria anunciava cansaço e desistência frente um governo autoritário e truculento, pois como ela mesma diz:

Alguém aí pode estar pensando que sou uma doida inconsequente, não me considero, sou sim idealista, eu acredito num mundo melhor, acredito que é possível, mas isto nunca cairá do céu, um Brasil melhor, onde não existam brutais desigualdades pode ser conquistado, mas só por meio da luta de todos nós, de cada um de nós. E isso não é pecado nem defeito, neste mundo onde os princípios valem algumas poucas moedas, algum idealista tem que sobrar para empreender as lutas.”

Continue lendo o depoimento da professora neste link

Intercom: o suprassumo da Comunicação

Congresso da região sul, reúne acadêmicos, professores e pesquisadores de 3 estados para discutir a comunicação. A partir de amanhã, Chapecó ganhará mais vozes

Marília Dalenogare

Neste ano quem recebe a edição regional no sul do país é a UNOCHAPECÓ em Chapecó
(Foto: Divulgação)

Para o pessoal da comunicação, todo ano é ano de Intercom – congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, pelo menos foi assim nos últimos 35 anos. As primeiras reuniões dos estudiosos, ainda chamadas de Ciclo de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, não tiveram espaço no universo acadêmico, sendo realizadas em hotéis, igrejas, conventos, até 1984 onde acontece pela primeira vez em uma universidade, na PUC de São Paulo. A partir de 1986 a reunião passou a se chamar Congresso Brasileiro de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Atualmente, com apoio das Universidades, a Intercom é reconhecida como um dos principais eventos da comunicação do país.

Hoje em dia o Intercom é uma possibilidades para estudantes de comunicação compartilharem seus trabalhos, trocarem conhecimento, saber um pouco mais do que está sendo pesquisado, interagir com estudiosos da comunicação do país inteiro, etc. Além do congresso nacional, realizado anualmente, revezando entre os estados brasileiros, também acontece com a mesma frequência o congresso regional, que contempla as regiões do país. Para a região sul do Brasil, nesse ano, entre os dias 31 de maio e 2 de junho, o Intercom Sul acontecerá em Santa Catarina, na cidade de Chapecó.

Como em todos os anos, amanhã pela manhã sai da frente da catedral de Frederico 2 ônibus com estudantes da área da comunicação rumo ao Intercom (Foto: Arquivo pessoal)

Amanhã pela manhã, sairão da Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen (UFSM-Cesnors), estudantes de Jornalismo e Relações Públicas, rumo a Chapecó. Além do congresso, das oficinas, dos trabalhos, a expectativa dos alunos é a premiação dos trabalhos inscritos, que concorrem no Intercom Júnior e no Expocom. O Intercom Júnior é o espaço destinado para acadêmicos apresentarem seus trabalhos de iniciação científica elaborados na academia e orientados por professores. Já a Expocom é a Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação, um prêmio dado aos melhores trabalhos experimentais produzidos por alunos de graduação nos cursos de Comunicação Social.

Para os acadêmicos, participar de um congresso como esse, além de contribuir para a sua formação também é uma boa adição no seu currículo, é o que nos conta o estudante de jornalismo Renan Machado Guerra, 19, da Universidade Federal do Pampa, Unipampa, de São Borja, “considero a participação em eventos como um ponto importante na nossa carreira acadêmica, que geralmente reflete no futuro profissional, esses congressos são válidos pela troca de conhecimentos. Além da troca de experiências entre alunos, pesquisadores e profissionais da área. Esses eventos sempre colaboram nas nossas decisões futuras em relação à carreira”.

Além das atividades do curso, onde Rossana aplica as técnicas aprendidas em sala de aula, o Intercom se mostra como espaço para pensar a relação teoria x prática (Foto: Agência Da Hora)

Somente da UFSM, campus de Frederico Westphalen, há 6 trabalhos concorrendo no Expocom e mais de 15 trabalhos no Intercom Júnior. Uma das congressistas é a aluna de jornalismo Rossana Enninger, 21, que vai apresentar seu trabalho no Intercom Sul, sobre isso ela conta “É muito bom ver um trabalho teu selecionado em um evento como o Intercom. É um orgulho ver que teu esforço foi reconhecido e que tu podes contribuir pro evento, não sendo somente espectador do que é apresentado. Além disso, é um estímulo pra gente continuar se dedicando naquilo que faz’’. Outro concorrente pela UFSM campus de Frederico na Expocom é o blog Segunda Chamada, que busca o prêmio na categoria de Jornalismo Digital.

“É amanhã”: Já no primeiro dia do evento, os estudantes poderão participar de oficinas, apresentar e assistir os trabalhos selecionados
(Foto: Eleci Alves dos Santos)

Através das redes sociais, alunos de toda a região sul já vem se comunicando e se preparando para o congresso há mais de um mês, trocando experiências e dúvidas, é um espaço para todos. No Facebook a contagem regressiva já começou há dias.

Primeira Chamada: Enem 2012

Marília Dalenogare

Hoje, dia 28 de maio, o Ministério da Educação abriu as inscrições para o ENEM 2012, o prazo para inscrever-se vai até o dia 15 de junho, o estudante deverá pagar a taxa de inscrição da prova no valor de 35,00 até dia 20 de junho. Estão isentos de pagar a taxa os estudantes que estão matriculados no último ano do Ensino Médio em escolas públicas e também aqueles que declararem carência. A guia para o pagamento será gerada no momento em que o estudante inscrever-se para a prova no site do Inep.

Inscreva-se neste link.

A prova do Enem 2012 será aplicada nos dias 3 e 4 de novembro. No primeiro dia serão aplicadas questões nas áreas das Ciências Humanas e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias. Já no dia 4, a prova contemplará as áreas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Redação e Matemática e suas Tecnologias.

João e Maria e a fábula da democracia racial

Com objetivo de debelar uma  fábula democrática que não cola mais, o Supremo Tribunal Federal determina que o sistema de cotas raciais, enfim, é constitucional

Dieison Marconi

Maria Flores da Silva representando Marias, Silvas, negros, minorias, está em um lugar onde todos tem o direito de estar: na universidade
(Foto: Dieison Marconi)

Maria Flores da Silva é mais uma das inúmeras Marias que carregam este nome tão comum. Maria é também uma dos tantos Silvas espalhados pelo Brasil, desde os escravos que eram batizados com este nome pelos donos dos engenhos de cana de açúcar, também usado pelos colonizadores portugueses e chegando ao topo com o ex presidente da república, o então Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas Maria, 24 anos, também é uma dos poucos negros a cursar uma universidade no Brasil, seja esta pública ou privada.  Maria tem uns olhos que de inicio, parecem orientais, mas que na medida em que se acostuma a olhar pra eles, percebe-se que aos poucos vão assumindo uma forte mescla de descendência indígena e negra, permanecendo no limítrofe de uma identidade que brinca com a cor, com os olhos, com o cabelo, os dedos alongados, Black is Beautiful, ou, negro é lindo, como cantava Elis Regina a todo pulmão. Maria é estudante de Engenharia Florestal na UFSM e às 10:30 de uma Segunda feira com sol, céu azul e frio seco, está na sala do seu apartamento que divide com outras quatro colegas, estudando. Sobre a mesa se espalham livros, cadernos e cartolinas rosadas com desenhos de plantas, caules e folhas em traços anatômicos. Pela parte da tarde teria prova de Andrologia, muito conteúdo e a razoável certeza que iria bem.  Se por um lado Maria flores da Silva é um dos poucos negros na universidade, ela também faz parte do maior número de negros e pardos que passaram a frequentar os bancos acadêmicos nesta última década.

Mas o que fez com que as universidades evoluíssem ao começarem aos poucos se tingir de negro? De Indígena? O que está enfim, fazendo com que a universidade brasileira, tenha cara de Brasileiro, mesclando e unindo todas as cores e etnias?  A resposta seria as ações afirmativas, às quais as universidades públicas e privadas estão aderindo desde o inicio da década, entre essas ações, está o sistema de cotas raciais.

Hoje é dia de Maria

Maria, autodeclarada negra, é cotista e faz parte dessa ainda tímida, mas presente realidade. Nesta década, no ensino superior público, o aumento de negros e pardos foi de 314 mil para 530 mil, uma variação de 69%. No privado, o crescimento foi de 264%, de 447 mil para 1,6 milhão. No total da população, a proporção desses grupos variou de 46% para 51%.

Antes de posições contrárias ou não, é necessário conhecer bem a realidade do negros e pardos no Brasil (Fonte: IBGE)

Os dados foram tabulados pela Folha de SP a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, mostrando que, no ensino superior, a proporção de autodeclarados negros e pardos cresceu de 21% para 35% de 2001 a 2009.  No entanto, brancos, pardos e negros ainda não estão em pé de igualdade. Apesar de centenas de universidades utilizarem políticas afirmativas para a ampliação do acesso da população negra e parda ao ensino superior, dados do IBGE mostram que o número de negros ainda é menor que o de brancos dentro das instituições. De acordo com o instituto, entre 1997 e 2007 o acesso dos negros ao ensino superior cresceu, mas continua sendo metade do verificado entre os brancos. Entre os jovens brancos com mais de 16 anos, 5,6% frequentavam o ensino superior em 2007, enquanto entre os negros esse percentual era 2,8%. Em 1997, esses patamares estavam em 3% e 1%, respectivamente.

De forma hedionda, os negros foram os operários na construção de um Brasil que hoje tenta lhes negar apenas uma simples parcela de vagas na universidade (Arte: Tarsila do Amaral)

A falha não está na capacidade intelectual de um negro em relação a um branco, mas sim num histórico de discriminação e exclusão. A falha se mostra num sistema educacional falido já na escola, num sistema que além de preconceituoso e excludente, é primitivo: começou nos navios que transportavam os africanos para solo brasileiro como escravos. Nisto, Maria se pergunta: “quais foram as oportunidades ofertadas aos negros a muitas décadas atrás que não fosse, inicialmente, a exclusão por um trabalho escravo, e depois a exclusão por uma falsa liberdade que não lhes deu apoio ou respaldo algum quando a escravidão acabou?! Basta um estudo fértil sob o negro quanto agente social hoje, para perceber que esta herança de exclusão ainda está aqui.”.

Cotas raciais: polêmicas ou não, controversas ou não, constitucionais sim

Universidade brasileira é aquela que se pinta de todas as etnias e dá oportunidade de conhecimento e dignidade para cada uma delas
(Foto: http://novotempo.comconexaont)

No dia 24 de Abril de 2012, com 10 votos a 0, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o sistema de reservas de vagas por cotas raciais, é constitucional, ou seja, não violam o princípio da igualdade e não institucionalizam, como muitos defendem, a discriminação racial.

A preocupação agora não é mais decidir se ao ofertar uma vaga por meio de ações afirmativas para um negro ou a um índio se está sendo inconstitucional ou preconceituoso. Agora, é preciso se ater sobre os critérios étnicos e sociais para a seleção desses estudantes.  Na decisão deferida (consulte todos os depoimentos dos Ministros que votaram a favor) foi salientado que as cotas raciais são uma medida transitória, logo, só existirão enquanto tais distorções se fizerem presente. “Se a raça foi utilizada para construir hierarquias, deverá também ser usada para desconstruí-las”, ratificou o ministro relator do projeto, Ricardo Lewandowski em seu voto.

O sistema de cotas raciais também estava sob contestação no Programa Universidade para Todos (Prouni), no entanto o STF também determinou constitucionalidade do uso das contas no programa. Leia sobre a votação

Quinhoar realidades

Os indicadores sociais dos últimos 10 anos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revela que a taxa de analfabetismo de pretos e pardos ainda é mais que o dobro da dos brancos, brancos ganham em média 40% mais do que pretos ou pardos com mesma escolaridade, idosos brancos vivem mais que idosos pretos ou pardos. Leia mais

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostra que o percentual de negros abaixo da linha de indigência é duas vezes e meia maior do que o percentual de branco (71% dos indigentes do país são negros) e que 70% dos pobres no país são negros. O nome de tudo isso disso é herança histórica e a passagem de tempo por si só não muda não muda tal realidade.

Diante de tais dados, difícil é dizer que se esta dando maiores chances aos negros com as cotas raciais. Maiores chances existiriam caso negros, brancos a pardos estivessem em pé de igualdade, o que infelizmente, para os pais, os avós de Maria, por exemplo, não aconteceu.

João e Maria: os não beneficiados também podem ser a favor

João não é beneficiado pelo sistema de cotas, mas é a favor porque não assume o discurso preconceituoso de uma maioria que se sente preconceituada por serem aqueles que detém o poder e o acesso ao discurso e à sociedade.
(Foto: Camila Souza)

Maria é beneficiada pelo sistema de cotas raciais, João não é. Ambos são a favor do sistema de cotas. A primeira já ouviu seus colegas dizendo que não faria trabalho da escola com outro colega porque este era negro. Ela, enquanto negra, também já ouviu e sentiu piadinhas dentro da própria família, fruto muitas vezes de um preconceito internalizado. Já João Marcelo Faxina, no seu segundo vestibular que prestou para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, obteve uma boa média e, provavelmente (baseando-se nas médias do vestibular anterior), teria ingressado na universidade se aquele ano não fosse o que entrou em vigor o sistema de cotas. “Fiquei revoltado à época e discutia com quem quer que fosse sempre amaldiçoando as ações afirmativas e atribuindo a elas a “perda” da vaga (que não é perda porque nunca foi minha)”.

Sobre sua concepção de cotas raciais naquela época, hoje João reverbera: “eu não sou analista, mas as minhas opiniões, e é só sobre elas que eu posso falar, tinham fundação no meu racismo”. Eram opiniões desgrudadas do tempo e do espaço e profundamente contaminadas por visões hegemônicas. Hoje eu lembro de um menino negro que fez a prova desse vestibular na minha turma, esperando o fiscal abrir a sala pra entrar, com um chinelo furado e um caderno de capa mole sujo de terra. Não sei se ele foi aprovado, gosto de acreditar que sim. Ele não roubou minha vaga. Eu estou na universidade, e estaria de qualquer jeito. Em pública ou privada, em 1 ou 5 anos, com ou sem cursinho, eu daria um jeito. Ele? Não sei. Também gosto de pensar que a educação vai emancipá-lo e empoderá-lo e que quando ele tiver filhos esses não vão precisar de políticas de afirmação, vão ter as mesmas condições para disputar uma vaga. Eu não sou hipócrita, nós não tínhamos a mesma condição. Lado a lado nós éramos de dois mundos.”

Hoje, João Marcelo que estuda jornalismo na UFSM, acredita que o fato da existência das cotas raciais não se trata de ratificar que negros não tem a mesma inteligência que brancos para passar em um vestibular universal, por exemplo, mas que é questão de acesso. Acesso que se materializa em espaços, mas que também se reflete na oportunidade ao ensino e ao mercado. Se negros não tem oportunidades de estudarem “aí se fica naquela velha história de que ‘como eu vou dar um emprego pra uma pessoa sem estudo? E nela baseou-se uma divisão de trabalho ancorada sim, na divisão de cor, em que o maior salário é da pele mais alva”.

Apesar dos discursos de uma maioria branca que também se diz preconceituada com as cotas raciais, por exemplo, o Estado, ao tentar reduzir as desigualdades sociais, somente o fará com a adoção de políticas afirmativas que encontrem eco nas camadas mais oprimidas da população e isto,  para Maria Flores da Silva, as ações afirmativas têm conseguido: “hoje é o tempo de se ver um médico negro, um advogado negro, um engenheiro negro. Que nós somos capazes. Mas onde estavam estas oportunidades, antes né? Nenhum negro deve se sentir preconceituado ou diferente por ter entrado por cotas na universidade, mesmo que devido a isso duvidem sua capacidade intelectual, pois o problema não está nas cotas, o problema está na mente das pessoas”.