Por amor às causas perdidas

A troca  da universidade pela militância estudantil dentro  das universidades

Dieison Marconi

Dezoito anos e a recusa de continuar vivendo com concepções pré-estabelecidas, valores rotulados e pré-conceitos criados por uma sociedade que ainda tem  muito o que progredir.  É isso que  Evelise Martins,  estudante do curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria, Campus de Frederico Westphalen acredita. E foi pensando assim, que  decidiu  trancar o curso para seguir militando país a fora no movimento estudantil juntamente com a Federação Nacional dos estudantes  de Agronomia (Feab), levantando as bandeiras  das questões de gênero, formação profissional, agreocologia e  relações internacionais.

Eve, como é  chamada, passou a engajar-se no movimento estudantil no ano de 2010, ainda na calourada. Seus veteranos organizavam-se  em defesa dos movimentos dos pequenos agricultores, participando efetivamente da Feab e reuniam-se para discutir temas  como preconceito, feminismo, agreocologia,  gênero e exploração trabalhista. Já ano seguinte, 2011, Eve deixa o curso para seguir fazendo “passadas de discussão”  nas escolas de Agronomia, por enquanto, do sul do país, e  assumir  a coordenação nacional da Federação  dos Estudantes de Agronomia.  Outra pauta que a estudante  pretende seguir em frente, é  a unificação do movimento estudantil. Movimento que, na sua opinião, está pulverizado e não lutando pelas mesmas  bandeiras, sobrevivendo, mas com a diferença de não ter um inimigo ou inimigos em comum.

Entre tantas atividades, Evelise participa das atividades Estágio Interdisciplinar RS (fonte: Evelise Martins)

Ao ler sobre o envolvimento de Evelise com causas  sociais, o leitor pode achar tudo demasiadamente clichê. Mas não é.  “Sua cabeça pensa onde seus pés pisam”, ela diz parafraseando o Estágio Interdisciplinar de vivência, onde estudantes de várias áreas  conhecem e  vivenciam a realidade da luta pela Reforma agrária  no Movimento  dos trabalhadores rurais. 

Ao participar do movimento estudantil,  Evelise põe várias questões em cheque, a começar pela sua profissão, onde se prioriza produção, técnica e   agronegócio às questões sociais, além da desvalorização do tripé da universidade, que é ensino, pesquisa e extensão.

O enfraquecimento da transmissão de valores sociopolíticos não se  restringe apenas ao curso de Evelise, mas boa parte das universidades privilegiam em demasia a formação técnica profissional, enquanto a formação social e humanista no agir da profissão é negligenciada.  E é por  isso que a estudante  completa:   “Passamos  cinco  anos  fechados dentro de uma sala  de aula, fechados em um mundinho,  sem se preocupar com o que pode estar acontecendo lá fora, e quando sairmos da lá, vamos continuar   reproduzindo  sistematicamente o que foi reproduzido até agora”. No entanto, a estudante não culpa a juventude atual pela falta de engajamento político para ela “esse comodismo faz parte de uma construção social, a qual  impera a falta de contestação e senso crítico. E é difícil quebrar algo que  já está  bem estruturado”.

“Mas nem por isso, se pode desistir” é  o que Evelise diz, em um de seus textos  que usará nas passadas pelas escolas de agronomia do sul do país. Um texto de  questões  de gênero e feminismo (não femismo) no qual a estudante cita Simone de Bouvoair. Um  verdadeiro combate a ideias tristemente bem instauradas:  “Nenhum destino biológico, psíquico , econômico define  a forma  com a fêmea humana assume no seio da  sociedade; é  o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário  entre o macho e o castrado  que qualificam de feminino. Só a mediação de outrem pode constituir um indivíduo  como outro” (Beauvoir, 1987)

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