O mercado da educação falhou

Com novas estratégias para 2012, segue a luta dos estudantes que reivindicam o fim “do sistema educacional mercadológico” no Chile

Dieison Marconi

Em 2011: estudantes chilenos na Capital Santiago em um dos protestos reivindicando uma reforma educacional no Chile (Foto: divulgação)

2011 foi um ano em que o Chile encontrou-se como um país onde protestos, passeatas, greves, cartazes, faixas e gritos de ordem emergiram ao sabor da livre expressão e da indignação dos estudantes universitários frente ao atual sistema educacional chileno. Um sistema educacional, que ao contrário do que pensam muitos países vizinhos latinos americanos, é baseado na municipalidade e na mercantilidade como único fim, alimentando, assim, um caro, injusto e excludente acesso à educação de qualidade. Não ignorando um grande movimento estudantil que ainda está em ebulição no Chile, dono de uma transversalidade que não é vista desde o fim dos anos 1980 quando o país ainda estava sob as mãos de ferro do ditador Pinochet, o Segunda Chamada trás a você um contexto do que foi a revolução dos estudantes chilenos em 2011 e como a mesma está se organizando neste ano de 2012.

O que os estudantes reivindicam

Desde Junho de 2011 os estudantes chilenos invadem as ruas exigindo do governo uma profunda reforma estrutural no sistema educacional herdado de Pinochet: a partir do ano de  1981, foi realizada a (contra) reforma que extinguiu a gratuidade no ensino superior no país, ou seja, atualmente não há no Chile nenhuma universidade pública. O que existe, são universidades privadas e “mistas”, as quais recebem subsídios do governo. No lugar da gratuidade, criou-se um sistema de créditos “solidários” para ajudar os estudantes a pagarem os altos preços das mensalidades, que podem variar de 2, 19 milhões de pesos ao ano (equivalente a R$ 8.760 ao ano) a números ainda mais exorbitantes como 4 milhões de pesos ao ano – (o equivalente a R$ 16 mil). Os dados são da Fech (Federação de Estudantes da Universidade do Chile).

Além de não abarcar a totalidade dos estudantes universitários, mas apenas os estudantes de renda mais baixa, esse sistema de créditos tem gerado um endividamento muito sério na juventude chilena, que, ao sair da Universidade, se depara com contas altíssimas que comprometem durante anos e até décadas sua renda – situação parecida (porém muito mais grave) à que ocorre atualmente no Brasil com o FIES. Além da gratuidade total da educação, o movimento também reivindica a sua não municipalidade, ou seja, a educação sob a guarda de prefeituras chilenas e não do Ministério da Educação, o que mostra o quão mínima é a intenção do Governo Federal de olhar pela educação do país. Exemplo prático de tal situação, é o relatório que a Unesco (Organizações das Nações Unidas pela educação, Ciência e cultura divulgou em Dezembro passado. O estudo vai de encontro aos atuais protestos e reivindicações dos estudantes, retificando o quão desigual é o sistema educacional chileno.  Leia mais clicando no link.

Frente a essa realidade, a população e o governo chileno sentiram durante o ano todo uma inconformidade estudantil há décadas acumulada entrar em erupção e a invadir as ruas, a explodir na capital Santiago e em outras cidades que seguiriam os mesmos passos, a tomar posse de universidades, dar origem a greves e receber apoio de outros setores sociais, como a categoria de professores e trabalhadores em geral.

Visibilidade Internacional e repressão

Estudantes enfrentaram violenta repressão por parte do governo Piñesa (Foto: divulgação)

A revolução dos estudantes no Chile ganhou espaço notável na imprensa mundial, conquistando uma intensa visibilidade internacional devido alguns motivos como: a adesão massiva (alguns dos protestos reuniram mais de 100 mil estudantes), assim como pelo fato da formação política e social de quem conduz essa luta que pôs em crise o atual governo de Sebastián Piñera, pelo fato de alcançar um reconhecimento massivo por parte de população chilena do quão injusto é o seu sistema educacional e de estarem dispostos ao diálogo com o governo, embora este tenha se mostrado em vários episódios, relutante à comunicação e abusando de policiamento e força bruta para conter os protestos estudantis. Algumas das denúncias que os estudantes já fizerem contra a repressão incluem detenções ilegais e até tortura física, e nisto, a ONG chilena Assessoria Cidadã revela que as denúncias feitas pelos estudantes à Comissão  Interamericana de Direitos Humanos devido a existência do Decreto supremo 1086, que limita o direito a manifestação pública, viola um dos direitos básicos do ser humano: a liberdade de expressão.  Mais informações nos links:

Camila Vallejo denuncia governo Piñera por criminalização das marchas estudantis

87% da população chilena vota por educação gratuita e de qualidade. Um não ao neoliberalismo.

Ao comando de Camila Vellejo

Camila Vallejo, 23 anos: aplaudida, ouvida, vaiada, ameaçada de morte. Líder do do maior movimento estudantil do Chile das últimas décadas
(Foto: divulgação)

Segunda mulher a ser presidente da Fech, não é o visual moderno e os incandescentes olhos verdes que fizeram de Camila Vellejo, até o momento, a líder dessa revolta estudantil do Chile, pois apesar da aparência, ela carrega consigo um discurso já antigo: uma maior intervenção do estado no setor da educação que há anos vem colecionando desigualdade e injustiça. Profundamente engajada na realidade política e social do seu país e na educação, com um talento nato para aglutinar massas e com argumentos sólidos e politizados, sejam em seus discursos ou nas entrevistas que já concedeu durante o movimento, estudante de Geografia de 23 anos de idade já foi considerada como musa do movimento revolucionário (alcunha da imprensa internacional) passando por uma das figuras mais notáveis de 2011 à ameaçada de morte.

Em entrevista a Carta Maior (Setembro de 2011), Vallejo ressalta que as demandas estudantis não são um assunto de direita e esquerda, mas sim de toda a sociedade chilena: “este movimento alcançou uma massividade e uma transversalidade que nunca tinham sido vistas desde o retorno à democracia em1990. Uma enorme parcela daqueles que, em um determinado momento, apoiaram Piñera, hoje se dá conta de que este não é um ataque direto à sua posição, mas sim a um modelo de educação que concebe a educação como um bem de mercado e não como um direito, e também a um sistema democrático que hoje, se reconhece , é muito estreito.” Camila chega a conquistar mais prestigio do que o próprio presidente chileno.

Mais informações: Entrevista concedida pela militante ao site BRASIL DE FATO

A luta continua

Apesar de toda a força e visibilidade que os estudantes conquistaram em 2011, para o novo presidente da Fech, Gabriel Boric ( atualmente Camila Vallejo ocupa o cargo de vice-presidente), houve poucos resultados práticos. Os novos passos da revolução para este ano de 2012, além dos protestos que vão continuar, só que de forma mais espaçada, o objetivo dos estudantes agora é apontar e revitalizar sólidas propostas de reforma tributária, política e educacional, contrapor as propostas governamentais que podem surgir e debater em cidadania quais seriam as melhores propostas a oferecer. Outra proposta a ser encapada é a interação com outros movimentos sociais chilenos, para que a transversalidade alcançada até aqui não se perca.

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