Levante Popular da Juventude: levante-se pela verdade!

Milhares de jovens espalhados por 17 estados brasileiros pressionam governo pela abertura dos Arquivos Secretos do Golpe Civil-Militar de 1964

Dieison Marconi

Levante-se pela verdade! Jovens empunham fotos de desaparecidos durante os anos ditatoriais
(Foto: João Zinclar/Levante da Juventude)

Choram Marias e Clarices no solo do Brasil, cantou nos “anos de chumbo” em uma interpretação histriônica aquela que por muitos é aclamada como a mais emblemática cantora brasileira: Elis Regina. Ainda choram Marias e Clarices, porque muitos dos que fizeram resistência democrática frente ao período ditatorial e foram perseguidos, torturados e mortos, deixaram como único vestígio reconhecido, as lágrimas daqueles que não sabem de seu paradeiro: nem onde, nem como e nem por quem foram assassinados. Esta é atual luta que está levando milhares de jovens brasileiros a invadir as ruas, praças e a ganhar visibilidade na mídia on-line e tradicional: uma luta pela abertura dos arquivos secretos do Golpe Militar de 1964, que instaurou a Ditadura Civil-Militar no Brasil e que completara 48 anos no último 1° de Abril. Mas não só a abertura dos documentos secretos, também a punição dos militares acusados de terem sido os assassinos dos que lutavam por um ideal democrático, mas que na época eram acusados e mortos como comunistas ou ameaça vermelha.

Em Porto Alegre, O Levante da Juventude protesta na frente das residências de alguns militares acusados de tortura e assassinato
(Foto: Leandro Silva/Levante da Juventude)

Esses milhares de jovens fazem parte do Levante Popular da Juventude criado em 2006, no Rio Grande do Sul. Desde o dia 26 de Março passado o movimento tem pressionado em forma de protestos e medidas diretamente incisivas sobre o governo. Os jovens que o organizaram são aqueles que não se identificavam com as formas de organizações tradicionais do movimento estudantil e queriam algo diferenciado, com a sua cara. Um misto da alegria e rebeldia, que fizesse da arte sua principal forma de comunicação. Então, em 2011, em Santa Cruz do Sul, com a participação de 1200 jovens o Levante se nacionalizou e agora está organizado em 17 estados no Brasil.

Flávio Correia Nardy, militante e engajado em superar o que considera "carências sociais" vê o Levante da Juventude como uma luta necessária e transformadora (Foto: arquivo pessoal)

O Segunda Chamada trás a você uma entrevista com Flávio Correia Nardy, integrante do Setor de Comunicação do Levante da Juventude- Santa Maria/RS. A pauta: Levante pela Verdade, luta que vem sendo traçada nas últimas semanas em prol da Comissão de abertura dos Arquivos Secretos do Golpe de 64 e que vem recebendo apoio, mas também repressão policial.

2chamada: Quais seriam os principais entraves que a sociedade e o Levante da Juventude tem enfrentado até o momento, desde os outros governos, que impedem a abertura dos documentos secretos?

Nardy: Do nosso ponto de vista, o principal obstáculo para termos acesso aos arquivos da ditadura é o mesmo que nos faz não ter acesso a todos os direitos sociais: os interesses econômicos e políticos das elites brasileiras, salvaguardados por governos-fantoches. Durante o período ditatorial, muitos empresários financiaram as ações dos militares, pois viam na ditadura a única forma de proteger seus interesses econômicos da “ameaça comunista”. A ditadura não foi apenas militar, mas sim civil-militar. Existia uma “caixinha” que garantia autonomia financeira para a manutenção do aparelho repressivo. Imaginem como seria negativa para esses setores empresariais uma abertura dos arquivos que desvelasse o que realmente aconteceu nesse país entre 1964 e 1985! Por isso, sabemos que 1) é imprescindível a luta popular para levar adiante esse projeto, pois se essa tarefa depende exclusivamente da vontade política dos governos, amargaremos mais alguns anos de farsas e mentiras; e 2) lutar pela abertura dos arquivos é lutar contra os interesses econômicos de setores poderosos de nossa sociedade.

2chamada: O país conhece a história da presidenta Dilma ligado ao Golpe de 64, sua luta na resistência democrática. Como o Levante da Juventude encara o fato de ela ter sido vítima da Ditadura Militar frente a possibilidade de ela não abrir os arquivos secretos do Golpe?

Nardy: É uma contradição que ela carrega. Sem luta popular, dependendo apenas do jogo de influências políticas que circula no interior do Estado, dificilmente a comissão da verdade poderá sair do papel. Também não podemos compreender a história de forma individualizada. Existe um jogo de interesses, expresso na luta entre as classes, que viabiliza ou não as medidas tomadas dentro do governo. Nosso desafio é criar força social capaz de pressionar o governo a aprovar a comissão e concretizá-la. Esse processo de construção da Comissão da Verdade e de Abertura dos Arquivos da Ditadura Civil-Militar só irá acontecer se tiver povo organizado nas ruas. E acreditamos que a juventude tem um papel muito importante nisso.

2chamada: O que significa para sociedade e para a democracia brasileira todas essas décadas de silêncio em que nenhum governo conseguiu abrir os documentos secretos do Golpe de 64?

Nardy: Significa que os poderosos nunca são punidos pelos crimes que cometem no Brasil. Porque os torturadores e quem os financiou não foram presos? Porque eles são os donos das cadeias. O efeito dessa impunidade e dessa (des)memória não poderia ser mais trágico para nossa jovem democracia. A contradição é que estamos numa democracia, onde em tese todos deveriam ter direitos e deveres iguais, onde todos deveriam ser respeitados de forma igual pelo Estado, mas ao mesmo tempo, o que nós vemos é a impunidade para os poderosos e o peso da repressão brutal contra os mais pobres. A impunidade dos crimes cometidos no passado é o que legitima a impunidade dos crimes cometidos hoje. Recentemente, o governo do estado de São Paulo realizou uma ação ilegal, imoral e ilegítima na reintegração de posse realizada contra os pobres da ocupação urbana de Pinheirinho, em São José dos Campos. Será que em uma sociedade realmente democrática esse tipo de barbárie poderia acontecer e ficar impune? Além disso, a figura do “inimigo interno” que deve ser combatido pelas forças militares para manter a ordem, que na ditadura era encarnada pelo jovem, de classe média, estudante, com ideais de transformação social, hoje é assumida pelo jovem pobre, morador de favela, semi-analfabeto, negro, em alguns casos, envolvido com atividades ilegais.

2chamada: Além dos protestos  nas ruas, em frente as residências dos torturadores e das movimentações nas redes sociais, denúncias e abaixo assinado, quais seriam as outras medidas práticas destinadas diretamente ao governo que o Levante está tomando?

Nardy: O Levante tem uma característica distinta dos demais movimentos sociais no tocante as suas bandeiras. Nós não temos uma bandeira de luta pré-definida, nossas bandeiras são todas aquelas que afetam diretamente a juventude da classe trabalhadora em sua vida, seja no campo ou na cidade. Por isso lutamos por um leque muito amplo de pautas, desde que estas sejam necessárias para tornar a vida dos jovens e do povo mais justa. Isso significa lutar pela transformação social. As nossas lutas e bandeiras devem educar e cativar a juventude, elevando sua compreensão da sociedade da qual fazem parte. Podemos e devemos lutar por saúde, educação, feminismo, transporte, trabalho, moradia, acesso a cultura, contra a destruição do meio ambiente, enfim, por todas as carência sociais que estão colocadas para a juventude da classe trabalhadora

2chamada:  O movimento tem recebido apoio dos amigos e familiares dos desparecidos durante os anos da Ditadura Civil-Militar no Brasil?

Nardy: Sim, tem uma lista de apoiadores que esta circulando pela internet, já tem quase 1500. Ali constam pessoas e entidades que estão dando apoio para as mobilizações do Levante.

2chamada:  A visibilidade do Levante da Juventude alcançada já é bastante intensa, principalmente na web. Quais seriam os próximos passos do movimento para os próximos dias/semanas?

Nardy: Continuar intensificando nossas mobilizações, em várias frentes, também na internet. Ela é uma ferramenta importante, mas não a única, nem a mais importante. Por si só, a internet não muda nada de nossa realidade. Ela não substitui a necessidade de organização, apenas pode potencializá-la. A principal ferramenta é ganhar às ruas, os bairros, as escolas, as universidades, ou seja, cativar mais jovens e a sociedade para que nos ajudem a dar continuidade a nossa luta. Foi o primeiro passo, mas ainda temos muito por fazer. Não temos como saber quanto tempo isso ainda vai levar, temos que construir isso de forma conjunta e que aglutine vários setores da sociedade. É preciso que todos se envolvam e que se organizem em torno desta questão. Portanto, nosso desafio é, acima de tudo, organizativo. Só assim teremos força social para levar adiante as bandeiras do projeto que defendemos um projeto popular para o Brasil.

Para  conhecer mais dessa luta que vem ganhando  grande adesão social, acesse o site do Levante da Juventude  e acompanhe seu perfil no Facebook .

2 responses to “Levante Popular da Juventude: levante-se pela verdade!

  1. bando de fumeta.

  2. Pingback: Levante Popular da Juventude: levante-se pela verdade!

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