Tarefa escolar: pra não dizer que não falei de diversidade sexual

Dieison Marconi

Ensino médio. Conversas durante intervalo, corredor tumultuado. Acho que eles se encontraram Lendo Nietzsche. Um em cada banco, depois de um lanche seco no refeitório onde não haviam se cruzado. Olharam um para a capa do livro do outro e riram, pela coincidência. Eu que também lia livros, talvez estivesse deixando de acreditar que iria encontrar alguém lendo Nietzsche, e assim, não iria poder dizer: foi Nietzsche que nos uniu.  Mas o que iria dizer mesmo, é que senti uma ponta de inveja ao ver aqueles dois meninos iniciando uma espécie de namoro, de se encontrarem pela capa do livro como dois pássaros que encontram o mesmo ninho e resolvem dividi-lo para o bem dos dois, um contrato social via capa de livro.”

A pequena narração acima é crônica. Crônica em um sentido um tanto doentio da palavra, já que em uma escola e principalmente em uma sociedade que se diz gozar de modernidade e ideias a frente de seu tempo, aqueles que partilham de uma vivência da sexualidade que não se enquadra no rótulo heteronormativo, no mínimo, são considerados doentes. É doente também, e esta doença não se restringe somente a opiniões pessoais e preconceituosas, mas sim a uma inaceitável negação aos direitos humanos de que toda e qualquer pessoa, independente de seu credo, cor, classe, etnia e orientação sexual merece dignidade, segurança e respeito.

Para lembrar que direitos humanos ainda existem, quanto ainda será necessário ratificar que a adolescência é uma idade de descoberta e que nisto, a sexualidade implica naturalmente em orientações diferentes, seja ela bissexual, homossexual e  heterossexual? Quanto ainda será necessário também, listar mais e mais casos de jovens e adolescentes que sofreram alguma forma de repressão dos colegas devido a sua orientação sexual, e que isso, resulta em mortes  ou que causa transtorno ao adolescente e a toda família, pois como estes tem  sido noticiados a exaustão e nada  ou muito pouco se tem feito para o reparo da homofobia nas escolas, pois por mais que entidades defensoras dos direitos LGBTS tem  lutado fortemente pelos mesmos, temos pouca representatividade no governo e temos um governo que não perece tão preocupado com questões referentes a  homofobia.

Quantos jovens, meninos ou meninas durante sua vida escolar podem dizer-se homossexuais e sentir-se homossexuais com todo o direito a sê-lo sem sofrer represálias ou discriminações? Tanto se tem gastado e abusado do termo bullying, mas na prática, o que realmente tem sido feito para debela-lo e promover o respeito a diversidade sexual no âmbito escolar? O que tem se visto, são retrocessos que apenas subjugam adolescentes homossexuais a uma total insegurança e hostilidade: câmera no Rio de Janeiro tenta aprovar projeto que proíbe material didático que trabalhe diversidade sexual nas escolas, veto ao kit anti-homofobia, veto ao vídeo educativo voltado ao publico homossexual no carnaval, bancada evangélica encampa projeto cura gay, entre tantos outros atos e discursos homofóbicos abastecidos por ideias extremistas e religiosas que ignoram qualquer menção de direitos humanos.

               Ainda assim, quanto ao combate a homofobia nas escolas,  é e será necessário perguntar a nossa presidenta Dilma Rousseff, se combater a homofobia não significa reconhecer que qualquer orientação sexual não heteronormativa  é tão digna de respeito quanto a heterossexualidade? Lembrar, também que, quando a mesma afirma que o seu governo “combate a homofobia, mas não propagandeia qualquer opção sexual”, parece que nos diz que  a homossexualidade é uma espécie de defeito ou algo vergonhoso e que não há nada de positivo na mesma. E tal como outros “deficientes”, gays devem ter seu “problema” tolerado. Diante de tal afirmação, a figura de guerrilheira e presa política da Dilma de outrora, já não lhe cai tão bem: o governo desta é subserviente aos evangélicos, como se repetisse o discurso nauseante de pastores ou padres: o pecador deve ser amado, mas não o seu pecado, ou seja, gays podem ser acolhidos, mas não a sua homossexualidade.
Quantos alunos de 16 anos no ensino médio, independente de ser homossexual ou heterossexual terá senso crítico  o suficiente para perceber que um não deve sentir-se  humilhado pelo que se é e que o segundo não deve reprimir o primeiro devido a uma diferença que até então foi marginalizada por um seio  social preconceituoso? Quantos alunos podem chegar em casa sem culpa alguma de sentir atração pel@ colega do mesmo sexo e até introduzir na família, uma maior consciência, respeito e tolerância com a diversidade sexual? E não é função da escola formar não apenas alunos, mas sim alunos com consciência crítica frente às realidades da quais comunga? Ao não permitir uma educação sobre diversidade sexual da escola, sendo ela necessária para formação de uma sociedade justa e equilibrada, onde a lecionarão então? Na rua que não vai ser, pois é justamente devido a esse déficit educacional que rua é lugar de homofobia escancarada, agressão e espancamento.

*Essa semana o Segunda Chamada soltou a pena! Cada um dos nossos repórteres ficou livre para compartilhar vivências e opiniões sobre os diferentes momentos de aprendizado. Mas o caro leitor pode estar se perguntando: da onde? Bom, da onde surgem todos os pensamentos e, como bem já disse o mestre Machado (de Assis), de como nasce uma crônica:

Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue está começada a crônica (Nascimento de uma crônica, Machado de Assis).

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