Pra não esquecer a tarefa da inclusão social

Evento do Dia do jornalista na UFSM-FW é finalizado com grandes lições de acessibilidade, jornalismo cidadão e motivações para mudar

Dieison Marconi

Teco apresenta seus pedaços de inteligência: como foi o inicio de sua alfabetização
(Foto: Marcielle Martins Defaveri)

Ontem, 12 de Abril, o curso de jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria Campus de Frederico Westphalen promoveu, em homenagem ao Dia do Jornalista (7 de Abril), um dia todo voltado para questões de acessibilidade, inclusão social na universidade, nos cursos de Comunicação Social e na profissão de jornalista como um todo.

Neste inicio de 2012, ao  retomar ao ano letivo, o curso de jornalismo da UFSM-FW se deparou com uma novidade que de um lado, mostra o quão atrasados ainda estão alguns setores da sociedade para receber aqueles que até então descobriram que não precisam e não devem compactuar com a marginalização que sociedade lhes impõe: com a chegada de uma acadêmica com deficiência visual, professores do curso têm o dever de a partir de agora, rever seus conceitos, pré-conceitos e práticas pedagógicas de como ser professor, de como ensinar e fazer jornalismo, sem qualquer espécie de exclusão.

Pensando nisso, o evento organizado ontem pelo curso, trouxe para protagonizar as atividades do dia, Antônio Valter Barbero ou Teco Barbero, como prefere ser chamado, o qual também é deficiente visual. Porém, apesar de possuir somente 5% de visão, Teco é Jornalista e fotografo de Sorocaba, São Paulo. No evento Jornalista lecionou oficina com técnicas adaptadas para que deficientes visuais pudessem fotografar e também participou de mesa redonda pra discutir políticas afirmativas na UFSM.

Para fechar as discussões sobre o tema no evento e reforçar o quão importante é dar vez e voz aqueles que precisam ter seus discursos lidos ou ouvidos para que passem a “existir” na esfera social, o Segunda Chamada trás a você uma entrevista com Teco Barbero relatando sobre sua vida profissional e sua militância pela causa da inclusão das pessoas com deficiência.

2chamada: Você faz palestras em muitas universidades e leciona também muitas oficinas de fotografia adaptada, como a “Fotografando os sentidos”. Quais são as motivações para fazer esse trabalho de conscientização e aprendizado?

Barbero: Nessas palestras eu espero que as pessoas com deficiência se sintam cada vez mais estimuladas a terminar os estudos, a procurar uma profissão, mostrar que elas podem fazer o que desejam, desde que lhe deem  oportunidade para isso. Nem eu ainda estou no ápice, eu quero mais coisas e eu vou conseguir se tiver vontade e as oportunidades aparecem. Eu poderia dizer para os coordenadores desse evento, que não daria pra vir, que é muito longe. Mas eu aceitei, encontrei uma maneira, alguém pra vir comigo. Isso é querer fazer alguma coisa diferente.

2chamada: De que forma a fotografia entrou na sua vida e como é não poder ver o resultado final da fotos?

Barbero: A fotografia entrou na minha vida aos poucos. É algo que eu gosto de fazer e com a qual eu posso ajudar as pessoas, primeiro na faculdade e depois em curso de fotografia adaptada. Mas nós precisamos romper paradigmas. Vemos muito mais coisas do que somente com os olhos. Sons, cheiros, sabores e tato também são visão e também produzem fotografia, pois pra fazer as fotos de uma obra, associo tudo o que vejo: barulho da furadeira, o barulho do martelo. Podemos compensar nossas deficiências explorando outras potencialidades e quando me perguntam qual é graça de fazer foto sem poder ver o resultado, respondo: estou mostrando ao mundo o que eu vejo com todos os meus sentidos. Nós não fizemos fotografia pra nós mesmos, nós fizemos fotografia para os outros verem.

2chamada: Como é se utilizar de outros sentidos pra fazer fotojornalismo e outras áreas da profissão de jornalista?

Barbero: Nós temos que adaptar. Não dá pra ser um fotografo factual, sair e cobrir uma pauta. Não é viável. Então nos adaptamos com outras coisas. Eu fotografo para o jornal interno da universidade onde eu trabalho. Lá, eu também sou editor de texto, trabalho com letra ampliada, pois minha leitura em braile é muito lenta e eu sou acostumado a ouvir, agora que eu estou começando a ler por conta própria. Quando as pessoas lêem para mim, tudo vai mais rápido. Eu consigo ouvir o texto e logo dizer qual é o erro dele, e isso a maioria das pessoas não conseguem. Eu ouço só uma vez e já digo: “isso aqui não está certo, essa palavra não está boa”. Um colega meu e que se formou comigo, passamos nós dois durante cinco meses conversando por telefone e corrigindo o texto de sua tese de mestrado, ele lia pra mim e eu o ajudava a acertar o texto.

2chamada: Qual seria a melhor forma de professores e alunos receberem acadêmicos com deficiência e promover a inclusão?

Barbero: Procurando se integrar o máximo possível. O processo ensino-aprendizagem deve ser repensado para a pessoa com deficiência e isso inclui não somente a posição dos professores, mas também dos alunos, pois o conhecimento só se constrói de forma colaborativa: o apoio dos colegas foi essencial na minha época da faculdade de jornalismo, foi o que me ajudou a aproveitar ao máximo a universidade e perceber que eu poderia fazer fotojornalismo e telejornalismo mesmo sendo cego. Nós deficientes não somos um atraso nas universidades, basta nos darem oportunidade e adaptações que nós vamos poder fazer qualquer coisa que um não deficiente faz. Não adianta me lavar em um estúdio de radiojornalismo, tem que me lavar lá e dizer o que é, como é, como funciona.

2chamada: Você foi o primeiro fotógrafo com deficiência visual a fotografar uma campanha publicitária no Brasil, convidado pela ADD (Associação esportiva para Deficientes). Como foi esse desafio?

Barbero: A princípio eu ia fazer só as fotos da campanha, o que já era um desafio grande, eu não tinha feito foto publicitária. Então nós fomos no estúdio e já havia uma roteiro feito. Mas as fotos foram eu que as idealizei. Era fazer fotos de um jogador de basquete ilustrando o que ele realmente faz: jogar basquete. Só que no meio disso tudo fui convidado para fazer um vídeo da campanha e neste vídeo eu chegava perto do fotografado e mostrava pra ele meu trabalho feito. Então eles colocaram como slogan da campanha que um deficiente pode fazer qualquer coisa, tanto que nosso fotógrafo é cego. É baseado nesse trabalho que eu gostaria de convencer os empresários que o foco da campanha deles pode ser baseado em outros sentidos e não somente na visão. Não é deixar o visual de lado, mas agregar outros valores a ele, conquistando outra clientela.

2chamada: Pra você, qual é a importância de o jornalismo dar visibilidade a causas como essas?

Barbero: O verdadeiro jornalismo é o jornalismo cidadão, é aquele jornalismo que dá existência para pessoas e causas marginalizadas ou esquecidas aos olhos da sociedade. Jornalismo é formação de opinião, é informação. E quando se informa que pessoas com deficiências podem fazer tudo o que um não deficiente faz, desde que lhe dêem oportunidade de mostrar isso, de trabalhar, de estudar, barreiras vão sendo quebradas para nós deficientes e todos nós só temos a ganhar com isso . Essa é função do jornalismo: também fazer valer a voz das minorias que precisam ser reconhecidas, não porque são minorias, mas por que é um direito como cidadãos.

Assista a Campanha da ADD na qual Teco é fotografo

Conheça um pouco da história de como começou sua relação com a fotografia.

Acesse também o blog de Teco Barbero

One response to “Pra não esquecer a tarefa da inclusão social

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