O pior analfabeto é aquele que sabe ler, mas….

Entre o analfabetismo absoluto e a alta escolarização, existe no Brasil 14, 1 milhões de analfabetos funcionais. Como superar tal problema que é mais uma amostra do quão falho é o sistema educacional do país?

Dieison Marconi e Bárbara Correa

Quintana no Caderno H: aquele que sabe ler, mas não lê (Foto: Dulce Veiga)

“O Pior analfabeto é aquele que sabe ler mas não lê.”  Este  “poema carreto” de  Mário Quintana é popular e de fácil absorção semântica. Fácil absorção semântica? Isso mesmo, pois é fácil e natural perceber que o poeta refere-se aqueles que conseguem ler e pronunciar em voz alta qualquer texto, mas nem sempre compreendem o que está dito nas suas entrelinhas. Em termos científicos, este pequeno poema de Quintana pode ser a fagulha para um debate sobre analfabetismo funcional.

Para a Organização das Nações unidas pela Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o analfabeto funcional é aquele adulto, idoso, jovem ou adolescente que encontra-se apto a leitura de um texto, mas não o compreende, aquele que sabe usar com pouca afinidade novos instrumentos tecnológicos, sabe escrever, porém não extrai sentido de ideias postas nos textos e nem as consegue elaborar de forma consistente por meio da escrita, sem saber também resolver cálculos mais complexos e usar tudo isso em seu cotidiano, consequentemente, não seguindo em frente na vida escolar e profissional.

Analfabetismo de todos pela educação funcional (Foto: Governo Federal)

Embora o conceito de analfabetismo funcional varie de um país para outro, engana-se quem pensa que estes são minoria. No Brasil, que considera analfabeto funcional aquele que possui de 15 anos ou mais com apenas quatro anos de estudo completos, segundo dados do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), 15% da população brasileira com idade entre 15 e 24 anos são analfabetos funcionais. Desses jovens, 2% são analfabetos absolutos (não sabem ler e escrever) e 13% são alfabetizados de nível rudimentar (leem textos curtos e lidam com números em operações simples, como o manuseio de dinheiro). Veja na tabela abaixo o percentual de analfabetos funcionais na população de 15 a 25 anos.

Relação analfabetos funcionais por região em população de 15 a 24 anos
(Foto: Instituto Paulo Montenegro/IBOPE)

Já nos dados da Pesquisa Nacional por amostras de domicílios (Pnad) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também em 2009, independente da faixa etária, um em cada cinco brasileiros são analfabetos funcionais, o que implica em 14, 1 milhões de pessoas. A assim como dos dados do Inaf/IBOPE, os resultados do Pnad também mostram que a maioria dos analfabetos funcionais se encontra no Nordeste. A taxa de analfabetismo entre a população com 50 anos ou mais chega a 40,1%, enquanto no Sul chega a 12%.

Mas o que é necessário para debelar o analfabetismo funcional quanto problema que está intrinsecamente ligado ao sistema educacional brasileiro? A partir das pesquisas realizadas no campo, os principais motivadores do analfabetismo funcional podem ter uma longa lista. Porém, inicialmente o problema pode estar diretamente ligado aos métodos pedagógicos de ensino aos quais os alunos são submetidos nas séries iniciais. Métodos estes que não dão atenção aos diferentes níveis de absorção de conteúdo que cada estudante possui. Além disso, o fato de muitos alunos serem aprovados nas séries iniciais sem o conhecimento necessário contribui para o aumento do problema, pois segundo resolução recomendada pelo Ministério da Educação (MEC), nos primeiros três anos de alfabetização nenhuma escola deve reprovar seus alunos. O que os profissionais da educação falam sobre o analfabetismo?Como resolver? Como aprender a lidar? Que subsídios e apoio um professor tem hoje para ajudar a superar tal problema? A seguir seguem depoimentos de professoras da rede pública, privada e de graduação. Veja só o que elas disseram-nos:

Fabiane de Andrade Leite / Professora da rede pública e privada em Santa Rosa-RS

“Para mim a alfabetização é um processo contínuo, o aluno nas séries iniciais é auxiliado a compreender o mundo através da leitura e da escrita de palavras e números, e este processo continua à medida que ele entra em contato com novos termos ao longo de sua vida. O analfabeto funcional, para mim, é todo o aluno que esteve ou está na escola, porém passou por um processo de alfabetização com problemas, sejam eles internos ou externos. E, como consequência disso vemos uma grande dificuldade nesses indivíduos de compreenderem o que observam ou produzem a cerca do mundo, o que traz inúmeras limitações ao seu desenvolvimento pessoal e profissional”.

Sandra David- Mestre em educação e supervisora educacional

“O analfabetismo funcional faz parte da nossa realidade, este cenário impõe um desafio extra para a nossa sociedade e para os educadores. Dessa forma, é necessário maior especialização no processo de alfabetização e um compromisso dos educadores em garantir o direito fundamental dos alunos em ter acesso a uma educação de qualidade em todos os níveis”.

Me. Rosita da Silva Santos –UNIJUÍ – Professora na Universidade Regional do Noroeste do Estado do RS. DHE – Departamento de Humanidades e Educação -Curso de Letras

“Enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por um indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito pela sociedade. Assim, letrada  é a pessoa que, além de saber ler e escrever, usa de maneira competente a leitura e a escrita. Uma criança, mesmo antes de ingressar na escola, se tiver contato com a leitura de livros, escutar histórias, brincar de escrever, conviver com eventos de letramento, já é letrada, apesar de não ser alfabetizada. É considerado iletrado ou analfabeto funcional aquele que é incapaz de entender e produzir qualquer tipo de texto oral e/ou escrito e não é capaz de avaliar, interpretar, julgar, confrontar e explicar as suas ideias. Na perspectiva do letramento, é preciso desenvolver a capacidade de não só usar socialmente a leitura e a escrita, mas praticá-las, respondendo adequadamente às demandas sociais em que as mesmas estejam inseridas”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s