Momento pós-greve: o que esperar?

Após mais de 100 dias de greve, docentes e discentes se preparam para enfrentar um calendário letivo e as incertezas do ensino público superior

Dieison Marconi

“Me sinto também, e não posso deixar de dizer isto, profundamente envergonhada da minha categoria, sair da greve hoje, neste momento e nestas condições significa ter prejudicado sim os alunos, as suas famílias e à sociedade que acreditou e apoiou nossa luta, peço perdão a todos eles, não por mim, nem pelos meus companheiros, mas por aqueles outros que não conseguem ou não querem ver o que estão fazendo, sair da greve hoje, significa concordar com o Modelo Educativo e portanto de Sociedade que o Governo está impondo, de maneira brutalmente autoritária. Quero manifestar meugigantesco repúdio a esta política de Estado que acaba com a Universidade Pública, gratuita, de qualidade”.

Professores da UFSM/FW foram os primeiros a aderir ao movimento grevista em maio de 2012 (Foto: Divulgação SEDUFSM)

Essas são as palavras da professora universitária Adriana Zeca da Universidade Federal de Santa Maria campus Frederico Westphalen, um dia antes da UFSM deflagrar o fim da greve para o dia 17 de Setembro. Em um depoimento em que votava pela permanência do movimento grevista, a docente abriu espaço para uma reflexão que, se existiu durante o movimento paredista, deve se manter ainda mais forte e mais presente neste momento pós greve: e agora, para onde iremos?  Quais serão os próximos passos? O que a PL 4368 rejeitada pelo Andes significa para a carreira docente e discente? Como está sendo a recuperação das aulas após praticamente quatro meses sem aula? Teremos logo adiante uma greve pela frente?

Greve docente em 2013?

Marinalva Oliveira, presidente do Sindicato Nacional dos Professores Federais, em conversa via e-mail, alerta que o Andes (que representa 53 universidades federais) pode sim retornar a greve em 2013, já que recusou a proposta apresentada pelo governo federal em Agosto, não tendo assim qualquer obrigação de se manter calado durante os três anos de adequação a proposta. Apesar da recusa, o reajuste salarial de 25% a 32% para os docentes já está incluído no plano orçamentário para 2013. No entanto, a possibilidade da greve retornar é concreta pelo fato de que as principais reivindicações dos grevistas não foram atendidas: “a proposta não simplificava a atual estrutura da carreira, não valorizava a produção acadêmica, precarizava a autonomia universitária e se quer levou em consideração as condições de trabalho.” E as demandas não foram atendidas frente a um autoritarismo e truculência desrespeitosos, segundo o Andes. Estas reivindicações que devem levar a uma nova greve nas universidades públicas em 2013 não podem ser tomadas pela Federação dos Sindicato de professores dos Instituições Federais e de Ensino superior (Proifes), já que esta entrou em um acordo.

No vídeo abaixo, você confere a fala de Ascísio Pereira, professor do comando local de greve na UFSM, o qual discorre e analisa sobre o movimento e seus desdobramentos, as propostas ofertadas pelo governo e a influência desta nas universidades públicas como um todo:

 

E neste link você acesso a uma séria análise do movimento grevista feita pelo comando de greve da UFSM

O calendário reformulado

Após mais de 100 dias de greve, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFSM deliberou no último dia 18 de Setembro o calendário letivo reformulado. O primeiro semestre do ano, que já está em andamento, deve ter seu fim no próximo dia 13 de Outubro. O segundo semestre do ano deverá ter seu inicio no dia 15 de Outubro e se seu final no dia 3 de Março. Isso, para o corpo docente e discente da universidade significa que as seis semanas que restavam para finalizar o primeiro semestre de 2012, foram reduzidas para quatro semanas, incluindo o período dos exames. Para recuperar o tempo de aula perdido, o calendário determina também que dias como 26 de Dezembro (pós feriado de Natal) já é dia letivo, assim como o dia 2 de Janeiro (pós feriado de primeiro do ano).

Apesar de já estar em andamento, e a que tudo indica, prosseguir sem modificações, professores e acadêmicos consideram o calendário desrespeitoso para com o movimento paredista, que reivindicava uma educação de maior qualidade, e para com os alunos, que apoiaram a greve dos docentes. Diante desta insatisfação alguns departamentos, que representam cursos da instituição, estão se mobilizando, por meio de seus representantes, para interpor recurso, consultando a Procuradoria Jurídica da universidade e questionando a jurisdicionalidade da decisão.

Greve organizada desde o ano de 2010 acabou sufocada pela intransigência do MEC, Ministério do Planejamento e Governo Federal (Foto: Divulgação ANDES)

No último dia 26, a Seção Sindical dos Docentes da UFSM (SEDUFSM) encaminhou recurso administrativo para ser analisado pelo Conselho universitário. O documento, que você poder ler na íntegra aqui, alerta que pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), todas as instituições de ensino superior devem cumprir pelo menos 200 dias letivos anuais, distribuídos em dois semestres, totalizando, no mínimo, 800 horas, ou seja, 48.000 minutos. No entanto, pelas condições de andamento do primeiro semestre letivo de 2012, como foi posto acima, não se cumprirá a carga horária mínima exigida pela LDB.

Segue o depoimento da Professora Adriana Zeca, um verdadeiro discurso de quem ainda não deu todo sangue e vontade de luta por uma universidade pública e de qualidade nestes quase quatro meses de greve, mesmo quando a categoria anunciava cansaço e desistência frente um governo autoritário e truculento, pois como ela mesma diz:

Alguém aí pode estar pensando que sou uma doida inconsequente, não me considero, sou sim idealista, eu acredito num mundo melhor, acredito que é possível, mas isto nunca cairá do céu, um Brasil melhor, onde não existam brutais desigualdades pode ser conquistado, mas só por meio da luta de todos nós, de cada um de nós. E isso não é pecado nem defeito, neste mundo onde os princípios valem algumas poucas moedas, algum idealista tem que sobrar para empreender as lutas.”

Continue lendo o depoimento da professora neste link

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