O papel do movimento estudantil na greve da UFSM

Segunda Chamada investiga participação de acadêmicos nas mobilizações na greve de 108 dias da UFSM

Josafá Lucas Rohde

A participação massiva dos estudantes foi limitada as assembléias estudantis (Foto: Bruna Homrich/SEDUFSM)

Foram 108 dias de paralisação, 108 dias sem aula, 108 dias de atraso, 108 dias em greve na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e em outras dezenas de universidades pelo país. Durante todo este período, a grande maioria dos estudantes, nos campi da UFSM, foram para suas casas esperar pelo fim da greve. Conforme o integrante do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Henrique Weber Dalla Costa, “a participação mais massiva dos estudantes teria um impacto maior nas atividades”, ou seja, uma possível retomada em menor prazo às aulas.

A indignação nas redes sociais não se traduziu em ações. Segundo a estudante de Engenharia Florestal, Mauren Buzzatti, que esteve presente nas assembléias e ações tomadas durante a paralisação, “nas mobilizações feitas, quem estava presente era justamente os estudantes do DCE e os professores”. Segundo ela, “o restante dos estudantes não se fez presente nestas mobilizações, mas sempre se mostraram presentes indignados com a situação via páginas de relacionamentos sociais na internet, e nada além disso”.

A estudante, Letícia Waldow, disse que viu uma boa participação dos estudantes, segundo ela, “muitos gostariam de estar presentes, mas pela distância acabaram não fazendo parte, e sendo ‘os revolucionários do facebook’, mas quem podia, esteve presente”.

DCE e DA’s promoveram ações, mas com pouco apoio

Reitor recebe reivindicações dos estudantes (Foto: Mariana Fontoura/DCE-UFSM)

Henrique defende a atuação do DCE durante a greve, segundo ele foi realizado “fórum pela educação, atos públicos, marcha pela educação, participação nos comandos de greve locais e nacionais, negociações com reitoria e direção de centro e assembléias”. Ainda segundo o integrante do DCE, a entidade “esteve presente em todas as ações representando os estudantes em nível local e nacional e também criando espaços de discussão e de agitação, alguns em conjunto com técnicos e professores”.  Para ele, “não faltaram ações do DCE, acreditamos também que a greve não é o único, e talvez nem o mais eficiente, instrumento de luta estudantil e que a luta por uma universidade melhor e mais democrática é constante”.

Durante a paralisação, a maioria dos Diretórios Acadêmicos esteve presente nas ações, conforme explicou, Mariele Fioreze, integrante do DA de Engenharia Ambiental, “os DAs contribuíram na construção das pautas e se fizeram presentes nas conversas que tivemos”. Segundo Mariele, “o que conseguimos de fato durante a greve foi uma conversa com a Pro Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) e com a Pro reitoria de Infraestrutura (PROINFRA)”, relata.

Segundo a acadêmica Mauren, “o trabalho dos diretórios acadêmicos foi e é de suma importância neste processo, pois o que está em discussão é justamente a educação, é um momento perfeito para que os DA’s aflorem esta discussão entre os cursos, para que se tenha uma maior reflexão de qual a situação da nossa universidade e das tantas outras no nosso país e que consigam trazer o debate pra dentro destas”. Mas como aflorar o debate se o curso não tem DA? É o caso do curso de jornalismo. O mesmo está sem diretório acadêmico, tendo em vista que na eleição do último dia 24 de abril, a mais de cinco meses, não teve quorum suficiente. A integrante do DA, Priscila Junges, disse que após a falta de quorum na primeira eleição, uma segunda deveria ter sido marcada, mas em função da greve isso não ocorreu.

O Segunda Chamada teve acesso a um documento anexado ao edital das eleições para DA, com especificações sobre o processo eleitoral. O documento não explica o que fazer em situações onde não há quorum suficiente. Priscila disse que alguns integrantes da antiga chapa continuam respondendo pelo DA, para os estudantes não ficarem sem representação. A integrante da então chapa, Chayenne Cardoso, em debate na lista de e-mails do curso de Jornalismo, a qual o Segunda Chamada teve acesso, justificou a não realização de uma assembléia para convocação de novas eleições dizendo: “questão é tempo, entende? É a solução no momento, não tenho como organizar uma assembléia sozinha. Todos sabem de todos os problemas da gestão do DAJ, e esses problemas acarretam o aumento do desinteresse dos alunos o que provoca aquele vergonhoso resultado das eleições”. Segundo Priscila, não há previsão para nova eleição.

Sobre a atual situação do DAJ a aluna do curso de Jornalismo Samantha Schreiber comenta “a falta de representação é prejudicial aos acadêmicos, pois poderiam estar sendo organizados palestras, eventos, ou até mesmo o diretório estar presentes em tomadas de decisões, coisas que não ocorrem sem uma nova eleição, que precisa ser feita de maneira emergencial”. Já a também estudante do curso de Jornalismo Laura Coutinho devolveu a pergunta, refletindo “acredito que a pergunta a ser feita agora não é como se deu a participação da atual gestão do DAJ, mas qual foi a participação de cada acadêmico de jornalismo, tanto na greve quanto nos interesses de movimento/organização estudantil no nosso curso”.

Representantes discentes cumpriram seu papel?

Se o DCE e alguns DA’s agiram durante a greve, o mesmo não aconteceu com alguns representantes discentes. Como é o caso do curso de Jornalismo, em que a representante do curso no Departamento de Ciências da Comunicação (DECOM), participou de apenas uma das três reuniões realizadas durante a greve. Sem dar retorno em nosso pedido de entrevista oficial, a presidente do DA de Jornalismo, e também representante discente, Chayenne Cardoso, em conversa via Facebook revelou: “só participei da (reunião) do início da greve e faltei duas, então como representante discente dentro do DECOM não tive atuação”.

Segundo o integrante do DCE, Vinicius Barth, que tem contato direto com o representante discente do departamento de Engenharia Florestal, “os estudantes que fazem parte do colegiado, como do departamento, estavam no comando de greve participando das atividades, durante a greve teve várias reuniões de reformulação do nosso PPC”. Mas Chayenne explica sua falta de representação, “todas as minhas faltas foram justificadas, por isso não fez mal eu faltar”.

Antropologia explica falta de interesse

Segundo o antropólogo, Milton Lahuerta, em entrevista ao iG, “a juventude não tem interesse pelas questões públicas, a política não é uma dimensão que atrai”. Para ele, o contexto que os jovens estão incluídos no mundo virtual faz parte desse processo. “O Twitter, por exemplo, reforça a rapidez da informação e não induz a reflexão. As pessoas não são educadas a dialogar, a enriquecer o vocabulário e a sofisticar os argumentos”, ponderou.

One response to “O papel do movimento estudantil na greve da UFSM

  1. Gabriel Lautenschleger

    A questão é que o DAJ nunca funcionou de maneira eficiente, não de agora, o problema da falta de mobilização se estende desde 2007, ou seja, 5 anos e a representação continua igual, deficitária e ineficiente!

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